
Uma mulher que trabalha com sexo não trabalha apenas com sexo. Paula Lee apresenta-se no seu domínio da ‘Net’. Prostituta, garota de programa, acompanhante, cortesã, amante profissional, rameira, mulher da noite, meretriz, quenga, menina de convívio, nomes para a mesma função, a sua: “terapeuta sexual.” No seu apartamento arrendado de Leiria, ela recebe os homens que leva para a cama a troco de rosas. É lá dentro, na sala, num dia cinzento, que a brasileira de 24 anos ouve, mansinho, ‘Infinito Particular”.
Paula Lee gasta duas horas por dia, em média, para alimentar o blogue com coisas da sua vida profissional, “intimidades”. “Coisas que posso contar imediatamente. Outras, guardo, para minha segurança, pode ser perigoso.
NOVATAS DO SEXPHONE
As novatas do Sexphone têm um instrutor que orienta a conversa. E uma lista de palavrões para dizer ao cliente do outro lado da linha. Paula Lee fez seis meses de sexo falado nas linhas eróticas brasileiras antes de atravessar o oceano. “Se ele liga e me pergunta ‘qual é a sua lingerie?’, eu falo. Depois falo do meu corpo mas se ele volta a falar da lingerie é porque a quer vestir, é a tara dele. Você tem de pegar logo, se não vai ficar desiludido. Ele nunca vai falar, tem vergonha.” Através de uma amiga que emigra a bordo do sexo para Espanha, Paula estabelece contacto para sair também ela do Brasil. “Fiquei cheia de curiosidade e fui conversar com uma senhora, gente famosa no Brasil. Se a oportunidade aparece, a pior coisa é ficar toda a vida na dúvida.”
O destino deu-lhe o visto para Portugal com pouca experiência de vida, três namorados na bagagem e relações envergonhadas. “Sempre debaixo do lençol, se eles me viram uma perna foi muito.”
A psicologia das linhas telefónicas acabaria por ajudá-la nas camas portuguesas.
Paula nunca tinha saído do país. Nunca tinha andado de avião, quando aterrou no aeroporto de Madrid com destino marcado para uma boîte do Norte português, junto à fronteira. “Na altura, o esquema era vir por Espanha e depois entrar no País de carro. Hoje em dia, já vêm directo porque lhes arranjam contratos de trabalho com cafés e pastelarias.”
O homem que a devia esperar nas chegadas do aeroporto de Barajas, não aparece. O desespero, que a faz andar desaustinada de um lado para o outro, levanta a suspeita da polícia. É revistada. “Pensei, tou lascada. Como é que ele sabe que eu vim para a prostituição?!
Mas o policial só queria fazer uma espécie de radiografia. Ele suspeita de droga. Pôxa, pode me virar do avesso.”
VIDA DAS BOÎTES
A vida das boîtes passa a ser rotina. Alternam-se corpos com urgência. “Tem meia hora para estar com o cliente. Em meia hora tinha que subir com ele, tirar a roupa, lavar, ir para a cama, ele gozar, depois lavar, colocar o vestido e descer.”
A ditadura do relógio desagrada a alguns, que reparam nos olhos da mulher no relógio. Paula aprende a calcular para dentro. “Eu contava; até 60 um minuto e por aí em diante. Ele lá e eu contando.
Se bem que facilita: a maioria dos homens quer despachar, é só virar de quatro, à canzana, e já está.”Paula foge da primeira boîte, ofendida.Quando precisou, os donos do estabelecimento não a defenderam. “Uns ciganos me trancaram a um canto do bar, enfiaram os dedos dentro de mim, eu atirei o cartão para dentro do copo deles.”
Foge da primeira casa nocturna e sai das seguintes. “Quando a gente trabalha em boîte só tem uma mala, no máximo duas malas, ali tem tudo o que precisa: roupa, botas, vibradores, tudo aquilo de que a gente vive.”Na rota do sexo, Paula evita viver de dia com as colegas que trabalha de noite, altura em que fomenta amizade com clientes seleccionados. “Polícias e bandidos, gente que pode ser boa ou má para a sociedade mas que para mim foi gente boa.
Por sua causa, tinha liberdade de movimentos.
”Ergue a palma da mão direita e abana-a de um lado para o outro em frente da cara. “Quando cheguei, eu era assim: tapadinha.”
Aprende a malícia, a mandar na cama, a impor a sua vontade ao patrão. O seu 1,62m de altura chega até para obrigar um dono de boîte a abrir as máquinas de jogos e de cigarros para lhe pagar. “Tem boîtes, principalmente hoje, que querem pagar às meninas no dia seguinte. Dizem que não têm dinheiro, só cheque ou Multibanco.
Conheço gajos que devem 500, 1000, 2000, 3000 euros para as meninas. A mim ninguém me deve um cêntimo.”
“Nada me excita mais do que um homem tímido. Desde a escola que era assim. Os tímidos eram caçoados pelos outros homens, mais espertos e aventureiros.
” No livro de Ubaldo, os portugueses e o sexo: “(...) Aliás, fode-se muito bem em Portugal, apesar do que eu suponho ser a opinião generalizada.
“Os homens portugueses pedem o normal e a simulação masculina. Às vezes, nem pedem isso mas eu percebo e pergunto durante o acto. Eles dizem não sei, nunca experimentei. O que você acha? Eu digo: acho bem, meu bem.” Paula usa vibrador na cama.
“Existem sítios onde se filmam a entrada e a saída dos clientes. O homem entra, escolhe a menina e vai para o quarto e mesmo que ela queira demorar, não pode. O filme regista. Se for tempo a mais, o dono acha que a menina deu duas oportunidades e só entregou o dinheiro de uma.
”Estabelece-se em Leiria, a psicologia do sexphone ajuda o desempenho da amante profissional.
“Ganho bem, não tanto quanto gostaria. Já houve épocas melhores em que tinha trabalho a tempo inteiro, hoje tenho a meio expediente e não é diariamente.”
No preçário do blogue, duas horas em atendimento normal, quatro oportunidades são 110 rosas. Cinco a dez minutos, 20 rosas, uma oportunidade. Também atende e faz tratamento respiratório para ejaculação precoce.
“Não quero falar do dinheiro que posso ou não fazer. O meu preçário é fixado num valor superior, para me valorizar. Se você acompanha a tendência, vai ter o dia em que vai estar pagando para cliente.”
As leis da economia aplicam-se ao sexo. Em dois anos, Leiria passou de dezena e meia de apartamentos para mais de 60. “As meninas levam 30, aparece uma que leva 25. Durante uma semana, essa trabalha muito bem. Até um dia, aparece outra também nos 25. Aí tem concorrência. Hoje em dia, há meninas a trabalhar por 12,50, como dão metade ao dono do apartamento ganham 6,25. Tem que atender muito homem.”